sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

LIVRO NO CINEMA: Por que "On The Road" é eterno? A opinião de Walter Salles e Jerry Cimino

Por Juliana Garzon

Sim, eu aqui de novo com notícias sobre esse livro. Bom, hoje minha amiga Elle (@tELLErized); que fez uma entrevista exclusiva com o diretor brasileiro Walter Salles, responsável pela adaptação cinematográfica do clássico Beat, e Jerry Cimino, responsável pelo Beat Museum, sobre o qual já falei aqui, publicou a segunda parte de seu looongo artigo. Nele os dois entrevistados falam sobre o legado da geração Beat para a nossa geração e sobre o motivo de "On The Road" de Jack Kerouac, publicado no fim da década de 1950, ainda ter o mesmo apelo nos dias de hoje.

Espero que gostem desse trecho que separei para vocês.


Guardando Um Segredo- Parte 2

Ontem, na parte 1 [que você pode ler aqui] da minha entrevista exclusive com Walter Salles e Jerry Cimino, eu escrevi sobre o filme “On The Road”, uma colaboração entre Francis Ford Coppola, Walter Salles e Jose Rivera, baseado no livro de Jack Kerouack, “On The Road”, e a jornada para levar o Hudson ’49, doado por Salles, para sua nova casa, o Beat Museum em São Francisco, CA. O filme tem um orçamento de US$ 25 milhões e fala sobre viagens espontâneas cruzando o país e as situações encontradas por Sal Paradise, Dean Moriarty e amigos enquanto eles buscavam satisfazer sua luxúria por experiência. Na parte 2, nós focamos mais no filme mesmo. Especificamente, um livro ambientado na década de 1950 e publicado em 1957 se mantém relevante no mundo atual? Os temas do livro vão ressoar de forma satisfatória com o público depois de serem transformados em filme?

Eu busquei as respostas e conversei com o diretor Salles e com o diretor e fundador do Beat Museum, Jerry Cimino. Os dois foram extremamente graciosos com seu tempo e me contaram coisas incríveis. Cinimo nunca me apressou na nossa conversa detalhada. Salles se dispôs a responder minhas perguntas apesar de estar em férias em seu país natal, Brasil, pela primeira vez em 18 meses, já que estava dedicado ao filme. Inicialmente, eu foquei a discussão na relevância dos Beats no mundo atual, mas era inevitável que começássemos discutir o processo e as expectativas que acompanham transformar um livro em um filme, e também falamos do filme e do elenco.

Eu procurei primeiro Cimino para me ajudar a contextualizar a relevância do livro no mundo de hoje, particularmente para aqueles que podem só agora estar descobrindo Kerouac e os Beats.

“On The Road” fala sobre um problema eterno; é sobre a busca pela autenticidade. É sobre a busca por viver a vida e encontrar alegria no mundo. É eterno no sentido de que toda pessoa vive e passa por esses momentos”, ele diz. “Eu acho que a maneira do Kerouac de escrever e o seu estilo e como ele representa seu personagem é tão atrativo para as pessoas porque elas se vêem os vêem seus amigos nos personagens.”

Ele considera que o livro é um arquétipo de uma busca espiritual e compartilha a opinião com os outros, como parte do aspecto educacional que acompanha a função de cuidar do Beat Museum. “Muitas pessoas pensam que é sobre o sexo, as drogas, o jazz, rock and roll, ou a música e tudo bem; isso os faz entrar pela porta. Mas uma vez que eles estão aqui, nós tentamos ajudá-los a entender que é realmente sobre descobrir quem você é no mundo. Sobre encontrar sua própria voz, seu nível de autenticidade e o que é importante para você”.

Cimino destaca que a influência dos Beats é persistente em diversos níveis hoje porque há 50 anos eles já estavam lutando duro por várias liberdades que consideramos banais hoje- especialmente relacionadas com questões sociais como o ambiente, as raças e a igualdade entre os gêneros, também os direitos dos gays e lésbicas.

“Os Beats eram os não-conformistas da era e fizeram com que fosse tudo bem ser diferente. Ginsberg fez com que fosse tudo bem se revelar homossexual. Kerouac disse ‘Eu quero ser escritor, não quero trabalhar na fábrica’. Eles fizeram com que fosse tudo bem escolher um caminho alternativo. Hoje, você pode ver isso seguindo o próprio caminho em várias subculturas na América. Eles caras traçaram a trilha e fizeram com que fosse tudo bem ser único e essa é um dos motivos pelos quais eu os celebro.”

 Enquanto o museu dá a Cimino uma plataforma educacional, ele também da a ele a oportunidade de conversar com os visitantes e entusiastas Beat. Isso nos levou a falar sobre a descrença que alguns têm sobre “On The Road” ser transformado em um filme e eu falei que muitas pessoas nem sabem que Kerouac queria que o filme fosse transformado em filme (fato evidenciado na famosa carta que ele escreveu a Marlon Brandon, dizendo que eles deveriam fazer o filme e que ele precisava ser Neal).

Cimino foi ainda mais detalhista sobre a intenção de Kerouac. “Jack realmente esperava que o livro virasse filme. Eles tentaram vender os direitos enquanto Jack estava vivo. Eles ofereceram tipo US$100 mil e o seu agente queria aumentar para US$150 mil. Não deu certo e Jack ficou nervoso quando o agente não vendeu”, Cimino explica. “Jack entendia que os filmes não são livros, é uma interpretação diferente. Tem certas coisas que mudam quando você transforma um livro em um filme. É assim que funciona e Jack entendia isso.”

Nos anos de Hollywood, o filme está no processo de ser feito desde sempre, mas Cimino está entusiasmado com o potencial do projeto Coppola-Salles. “Eu amo o fato de que era Coppola quem tinha o projeto porque ele simplesmente parece ser o tipo de cara que ou faz tudo certo ou não faz de forma alguma”, ele diz. “Walter Salles sabe tanto sobre Jack Kerouac e a geração Beat quanto qualquer pessoa que eu tenha conhecido na minha vida e eu conheço todo mundo. Se eles estão no mundo Beat, eu os encontrei e os conheço. Walter está bem no topo das pessoas que entendem essas coisas. Você tem atores dedicados, atrativo de público e pessoas dedicadas antes mesmo de estarem relacionadas ao projeto”.

Eu compartilhei os comentários de Cimino com Salles e a resposta dele não foi exatamente o que eu esperava, mas também não é a costumeira resposta de diretores em situações similares. A resposta de Salles é bem pensada, recheada com o seu característico senso de respeito, humildade e sinceridade quando fala da relevância dos Beats no mundo atual.

“Primeiramente, nós todos estamos honrados com a confiança do Jerry... Ele é tão entendido do livro e de uma geração que não redefiniu apenas quem somos, mas também a forma como vivemos. Por outro lado, eu acredito piamente que a adaptação do filme deveria primeiramente criar o desejo do público de voltar para a fonte original, ou seja, o livro. Nós podemos interpretá-lo, mas apenas Kerouac pode nos dizer como a jornada realmente foi. Ele fez isso misturando o que ele viveu com o que ele havia imaginado. Ou seja, contrapondo a “verdade objetiva” com a verdade da imaginação. E ele fez isso de forma brilhante.”

Não dá para não pensar como as respostas de Cimino e Salles refletem a grande admiração que um tem pelo outro. O respeito deles pelo material e pelo movimento entra nas palavras. Além do mais, revela como se juntaram no objetivo de manter o legado Beat vivo para as próximas gerações.

Para continuar lendo e saber mais sobre a produção do filme "On The Road" acesse: Hedlund Brasil.

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