quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Resenha - "A Visita Cruel do Tempo" de Jennifer Egan

Por Roh Dover

Título Original: A Visit From the Goon Squad
Autor: Jennifer Egan
Lançamento: 2012
Páginas: 335
Formato: Impresso
Categoria: Ficção/ Drama
Editora: Intrínseca
Cortesia 

Sinopse: Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e em garotinhas. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.

“A Visita Cruel do Tempo” de Jennifer Egan ganhou o Pulitzer de melhor ficção em 2011, fazendo com certeza o livro receber uma tiragem bem maior pela curiosidade humana sobre se o livro é tão bom quanto o prêmio que recebeu. Essa curiosidade chegou até a porta de minha casa, e ainda me deixou um bilhetinho “deixe o pré-conceito de lado”. Sim, pois quando o livro chega a minhas mãos com tamanho apelo da mídia como “O melhor livro que você terá nas mãos” do Los Angeles Times, faz automaticamente que eu abane as mãos, ande para trás e diga, não sou a pessoa certa para ler! Já que não gosto de sentir esse gosto de expectativa.
O bilhete da curiosidade venceu, e fui tomada por completo por uma euforia em ler o livro que todos estavam falando. Porém, meu sexto sentido disse-me algo, não dei ouvidos e comecei a ler as páginas da “A Visita Cruel do Tempo”. Acabei por não me sentir confortável com a leitura, que não segue um parâmetro cronológico e se torna confuso ao decorrer de suas primeiras páginas. Assim como no primeiro capítulo conhecemos Sasha, no segundo conhecemos Bennie e no terceiro, lá para por final do capítulo, descobrimos que aquele Bennie que Rhea estava falando é o mesmo homem do segundo capítulo, só que narrado por sua amiga, quando eles não passavam de dezoito anos. Não entendeu? Bem-vindo a “A Visita Cruel do Tempo”, sentem-se na sala e apreciem o filme.  
Apesar de não me “sentir em casa” lendo o livro ganhador do Pulitzer, Jennifer faz um apelo ao Senhor Tempo, que nenhum outro livro foi capaz de fazer, nosso coração se aperta e nos vemos pensando sobre nós, nossa vida e se ela percorrerá os mesmos caminhos daqueles personagens. Personagens estes que não são principais, nem Sasha a secretária cleptomaníaca, nem Bennie o executivo chefe de Sasha, nem aqueles que um dia se intercalaram nas vidas desses dois personagens, o estrelato é todo do Senhor Tempo, o cara de dupla personalidade, que as vezes brinca de ser vilão outra de ser herói.
Depois que Egan nos introduz na vida de Sasha e Bennie no presente, ela intercala os passados dos amigos e conhecidos desses dois personagens, o que mais chamou atenção foi como ela conseguiu passar o sentimento que todos nós temos em relação ao crescimento, como se o relógio do Senhor Tempo estivesse programado para começar a cronometrar assim que saíssemos do colegial, e sem que ninguém nos avise, temos nas mãos um fio vermelho chamado responsabilidade, e sem mais tempo nenhum, precisamos aprender a desarmar a bomba do tempo antes que o cronometro chegue ao zero.
Apesar do livro ser narrado sobre pessoas comuns e suas vidas comuns, um ricos e outros pobres, uns que tiveram sorte na vida, outros que batalharam pela sorte e aqueles ainda que esperam pescando no rio da cidade a sorte surgir, Jennifer, e toda sua confusão cronológica que ninguém vai conseguir se acostumar mesmo chegando perto do fim do livro, consegue narrar e transmitir a sensação do tempo passado com tamanha realidade que quando paramos para pensar, conseguimos escutar o relógio tic, tac, tic, tac, tic, tac, passando sem nenhum obstáculo pela linha do tempo.
A questão do tempo na narração de Egan também pode ser vista passando pela geração digital que estamos agora, como se essa geração fosse apenas mais uma em comparação com tantas outras que tiveram, de forma discreta ela narra sobre a questão pessoal e privativa, e quem tem algo pessoal nos dias da era digital? Uma questão levantada no livro foi sobre os bancos de dados das redes sociais, que armazenam todos nossos dados e juram nunca usá-los, e sem saber, pertencemos a inúmeras redes sociais.
O livro avança para além de todas essas questões, o tempo vai passando, e em se tratando de um livro que fala sobre o Senhor Tempo, uma jogada criativa da escritora foi se utilizar de um diário em formato de slides e gráficos do PowerPoint, para transcrever uma passagem de tempo que se utiliza de 100 páginas do livro.
A questão do seis graus de separação pode ter sido utilizada de forma discreta, assim como a teoria do caos, nos personagens do livro, sobre como nossa vida, mesmo aquela mais ínfima e simples possível, pode atingir alguém que nos é conhecido e que conhece outro alguém. Todos os caminhos vividos pelos personagens alguma vez se cruzou com outros personagens que narram a história, todos eles caminhando descalços sob o relógio do Senhor Tempo, pisando em obstáculos.
Talvez se Egan colocasse apenas o ano em que cada capítulo se desenvolve, estaríamos mais preparados para ler sobre seus personagens, sem a base da confusão cronológica em que o livro se desenvolve. “A Visita Cruel do Tempo” é um relato sobre a vida de todos nós seres humanos que habitamos o planeta Terra e que, talvez por coincidência, todos nós habitantes desse mesmo mundo, caminhamos pelo relógio do Senhor Tempo, queira nossas linhas se cruzem ou não, um dia ficaremos velhos e nossas vidas serão relembradas por flashs de momentos apenas do passado, sem nem ao menos um suspiro do futuro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário