quarta-feira, 13 de agosto de 2014

RESENHA: “Festa no Covil”, Juan Pablo Villalobos

Por Francine Estevão

Título: Festa no Covil
Título Original: Fiesta en La madriguera
Autor: Juan Pablo Villalobos
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2012
Páginas: 96

Sinopse: O romance de estreia de Juan Pablo Villalobos é surpreendente em muitos sentidos. Breve e incisivo ao revelar a face mais violenta da realidade (não apenas) mexicana sob uma ótica insólita, entra no cânone da narcoliteratura sem ceder aos tiques próprios do subgênero. Em 'Festa no Covil', a vida íntima de um poderoso chefe do narcotráfico , Yolcault, ou "El Rey" é narrada pelo filho. Garoto de idade indefinida, curioso e inteligente, o pequeno herói, que vive trancado num "palácio" sem saber a verdade sobre o pai, reconta sem filtros morais o que presencia ou conhece pela boca dos empregados ou pela tevê. Seu passatempo é investigar secretamente os mistérios que entrevê, colecionar chapéus e palavras difíceis e pesquisar sobre samurais, reis da França e animais em extinção, sempre com o auxílio de seu preceptor, um escritor fracassado egresso da esquerda.

Villalobos nos apresenta o mundo do tráfico mexicano visto de uma maneira extremamente diferente ao sermos conduzidos pela narrativa de uma criança. Tochtli nos conta, à sua maneira, de uma forma infantil e inocente, como é sua vida no palácio onde vive com o pai, Youcalt.

O jovem narrador é fissurado em chapéus, em contar a quantidade de pessoas que conhece, em se conter para não chorar e não parecer um maricas, em conhecer palavras novas que lê em dicionários e em animais, sendo que seu mais novo desejo de consumo são hipopótamos anões da Libéria.

Sem saber que seu pai é um dos poderosos chefões do tráfico mexicano, protegido em seu palácio sob uma segurança extremamente rígida que torna sua vida imersa em solidão, Tochtli nos conta, à sua maneira, sobre todo o dinheiro que tem, sobre as pessoas importantes como políticos que vão até o pai para fazer negócios e sobre toda a violência que acontece ao seu redor, mesmo que para ele isso não seja um absurdo e sim algo cotidiano a ponto de ele ter o costume de brincar com o pai de responder o que acontece com uma pessoa após uma determinada quantidade de tiros ser dada em uma determinada parte do corpo.

Somos apresentados a uma certa dicotomia entre as diversas realidades que cercam essa criança. Ao mesmo tempo em que ele está inserido em um universo de tráfico, mortes, disputas, traições, politicagem, e muitas outras coisas negativas, ele é completamente alheio à essa realidade em contraposição a toda a proteção que o cerca proporcionada pelo pai, que satisfaz todos seus desejos e o cria para ser um “homem de verdade” e não um maricas. Um exemplo dessas duas realidades são os animais de estimação que são dados ao menino para satisfazer seus desejos, mas que também servem também para comer as vítimas que tentam quebrar essa camada protetora que o cerca, os inimigos do pai, e não deixar rastros.

Villalobos encontrou uma forma de falar sobre uma realidade problemática séria do México, o tráfico, sem ir direto ao ponto, mas nos deixando chocados de certa forma ao ver o quanto isso é algo comum em algumas partes do país. Tão comum que faz parte do dia a dia de uma criança como se não fosse nada demais.


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