sexta-feira, 14 de abril de 2017

"Os treze porquês" - Filme e série




   
“A vida é imprevisível. O controle é só uma ilusão.”

Até que ponto conhecemos alguém? Vivemos diariamente com família, amigos, colegas, conhecidos e nunca vamos realmente conhecer essa pessoa de verdade?

Não pretendia escrever sobre essa série baseada no livro de Jay Asher que assisti em quatro dias – “Os 13 porquês”. Ganhei o livro quando lançou, mas li apenas os primeiros capítulos e fiz o que muita gente fez com a personagem Hannah– desisti.

Retomei agora após assistir a série e achei que ambos foram muito bons passando muitas mensagens não só para jovens, mas para adultos. Tanto o livro quanto a série abordam muita coisa – Bullying, depressão, falta de atenção, falta de amor, assédio sexual, suicídio. Como a vida tem seus altos e baixos e como as pessoas ao nosso redor podem melhorar ou piorar isso.

“Você não sabe o impacto que tem na vida dos outros. Tudo afeta tudo.”

Eu não queria falar sobre essa série/livro pois existem coisas que simplesmente não tem como serem descritas, mas ter assistido essa história e depois ter lido remexeu muito intensos sentimentos guardados e otras cositas más. Tocaram em feridas antigas (e novas), situações espelhadas e segredos. Não queria falar, mas eu devo falar para as pessoas lerem e assistirem a essa série e refletirem sobre as situações que são reais e pesadas que envolvem todas as situações.

“Há muita coisa errada no mundo. Há muita dor. Não suportava saber que não ia melhorar...”

A história é a seguinte: Ao voltar para casa após mais um dia de escola o jovem Clay Jensen encontra um misterioso pacote com seu nome na porta de sua varanda. Dentro ele descobre sete fitas cassete gravadas por Hannah Baker, sua colega de classe que cometeu suicídio algumas semanas antes.  A princípio Clay relutou, mas apertou o play... A voz de Hannah lhe explica que há treze razões pelas quais decidiu acabar com sua vida. Clay é um deles. Se ele ouvir, descobrirá 13 porquês.



"Engulo com força. Lágrimas pinicam o canto dos meus olhos. Porque é a voz de Hannah. Uma voz que pensei que jamais ouviria novamente. Não posso jogá-la fora."

Eu, Tu, Ele, Nós, Eles ouvimos nos tornamos testemunhas direta da dor de Hannah. A cada lado da fita lido/ouvido somos destruídos por dentro pouco a pouco. Por isso assistam com moderação, absorvam, respirem, reflitam...

Fita 1: Lado A
"Olá, meninos e meninas. Quem fala aqui é Hannah Baker. Ao vivo e em estéreo.
Sem promessa de retorno. Sem bis. E, desta vez, sem atender aos pedidos da plateia.
Espero que vocês estejam prontos, por que vou contar aqui a história da minha vida. Mais especificamente, por que ela chegou ao fim. E, se estiver escutando estas fitas, você é um dos motivos.
Não vou dizer qual fita tem a ver com sua participação na história. Mas, não precisa ter medo. Se você recebeu essa caixinha bonitinha, seu nome vai aparecer...
Eu prometo.
Afinal, uma garota morta não mentiria....”.

A série segue muito bem, até mesmo melhor, o que é exposto no livro. Jay Asher nos coloca dentro do livro hora como se fossemos Hannah, hora Clay, hora pais, hora adolescentes....nos conectamos profundamente aos desesperos, dor, vazio, solidão. O produtor Brian Yorkey conseguiu atrair a atenção para todos os temas propostos e passar todas as aflições e pontos de vista de todas as personagens e com a diferenciação sutil de cores mais vivas quando Hannah ainda não se matou e cores mais azuladas após o suicídio de Hannah. Uma coisa que achei muito legal foi como usaram um simples band-aid para diferenciar presente e passado, muito criativo.


Ouvi muita gente criticar Hannah e dizer “Nossa quanto drama! – Que menina porre! (Confesso que no livro senti Hannah um pouco mimada, mas é que são sensações passadas diferentes de uma mesma personagem no livro X série) - Se matar por isso, pff!”, mas consegui entender toda a carga que a jovem passou. E também ninguém sabe o que realmente acontece na vida de outra pessoa, o que elas passam e aguentam todos os dias, como elas lidam com todos seus sentimentos.

Penso que Hannah pode ter errado em colocar algumas pessoas na sua lista pois essas pessoas tinham seus problemas e suas dificuldades, mas vivemos fazendo isso – nossa dor sempre é maior que a do outro, nossa capacidade de julgar rapidamente uma situação ou vida dos outros é impressionante. Ainda assim, a meu ver, a garota tinha seus porquês.

Pois na vida é assim – Você desabafa e te dizem “nossa, que difícil” e já emendam e te cortam “ah, comigo também blábláblá...”. Você faz uma piada e passa em branco. Os que se dizem mais próximos vão aos poucos se afastando. Às vezes cansam de você, às vezes cansam de si e acabam descontando em você, cansam da rotina, às vezes sei lá o que e quando você vê, aquele que chamou de amigo, babau. A própria família te esconde coisas, age de uma forma pra te proteger e só está te fazendo é sofrer. Você faz, faz, faz, ajuda, ajuda, ajuda e nada está bom.  É pedrada de todo lado, ingratidão de cima e de baixo, crítica mascarada a cada seis horas...

As pessoas andam muito egoístas. Elas podem até te querer bem, mas jamais melhor que elas. Olham só pra si, pra seus sentimentos, seus atos, suas opiniões. O humano está esquecendo como é viver em sociedade e viver com o outro e para o outro. É disso que falam os livros e a série.



Muitos psicólogos e psiquiatras dizem que a Netflix “romantizou o suicídio” e estão apavorados com a cena final onde Hannah se mata (que há na série e no livro não) achando que vai desencadear um efeito de Werther nas pessoas. Esse efeito “inspiraria” os que sofrem de algum nível de fragilidade psíquica ou emocional e é baseado no suposto impacto de “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, livro do escritor Goethe à fama, mas ainda assim penso que seja uma série que deve ser vista, refletida e discutida entre todos pelos vários temas nela propostos.

“Ah mas não dá pra ajudar alguém que já desistiu de si mesmo...”.  - Sério? E por que essa pessoa desistiu de si mesmo? Bullying? Vazio, depressão, dor, cansaço, incompreensões, propósito de vida, desentendimentos...? Ninguém quer mais ouvir! Ouvir o que outro tem a dizer. Outros até ouvem, mas não fazem nada. Ninguém quis ouvir Hannah Baker. Ninguém percebeu seus sinais.

“Você abre seu coração para uma pessoa e todos acabam rindo...”




Claro, nós somos donos do que sentimos, mas pessoas, atos, palavras afetam tudo o que somos. Sim, somos nós também que decidimos se vamos ou não deixar alguém estragar nosso dia ou nossa vida, mas não é tão simples assim.

“Eu queria um propósito, uma razão pra eu estar nessa Terra...”

Todos estão vivendo suas próprias batalhas e seria mais fácil se cada um se juntasse e lutasse junto, mas não...a preguiça, o egoísmo, a falta de caráter, a inveja, o mal, a falta de amor, falta de compreensão – tudo isso faz com que as pessoas falem o que pensam, façam sem medir consequências e quem paga são as Hannah Bakers da vida.

“Parece que não importava o que fizesse, eu sempre decepcionava as pessoas. Comecei a pensar como a vida de todos estaria melhor sem mim. E como é se sentir assim? É como sentir nada. Como um vazio, sem fim, um grande nada.” – Hannah Baker

Em algum momento alguma coisa vai tocar em alguma parte de você enquanto ler/assistir “Os treze porquês”. Alguma coisa vai impactar você de alguma forma. Não tem jeito. Todos somos Hannah Baker. Todos sofremos ou fazemos sofrer, todos nós já ouvimos alguém e deixamos por isso mesmo. Já nos ouviram e deram de ombros. Já percebemos algo e deixamos pra lá pois é mais fácil, já nos julgaram e nos tacharam chatos e depressivos e desistiram de nós...mas cabe a nós olharmos mais pro outro e tentar ajuda-lo, ou apenas ignorá-lo e aí, o final, pode até não ser trágico, mas também pode ser tarde demais de diversas maneiras.  

“Precisa melhorar o jeito que olhamos pro outro e cuidamos do outro. Precisa melhorar.”- Clay Jensen










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