Obras de Machado de Assis, Monteiro Lobato, Júlio Verne, Dante Alighieri e Leon Tolstoi são adaptadas
Por Juliana Garzon
A tendência da literatura em quadrinhos - como é chamada a adaptação
de textos clássicos para a linguagem HQ - não é nova, mas ganhou força
nos últimos anos. Machado de Assis, Raul Pompeia, Monteiro Lobato, Dante
Alighieri e Júlio Verne são apenas alguns escritores que tiveram textos
recém-adaptados.
Roteiristas e desenhistas afirmam que, para se fazer uma boa
adaptação, é preciso um mergulho profundo na obra. Além da leitura
atenta, é necessário pesquisar imagens de referência que ajudem a
recriar a ambientação da época: geografia, arquitetura, mobiliário,
roupas, costumes e formas de manifestar os sentimentos, entre outros
tantos aspectos. "É preciso cuidado para não cometer gafes na hora de
representar essas coisas. É um trabalho bastante delicado de
documentação", diz o ilustrador Rodrigo Rosa, que assina a adaptação de
Dom Casmurro, de Machado de Assis, com o escritor e roteirista Ivan Jaf,
lançamento da Editora Ática.
As adaptações são feitas basicamente de duas formas. Quando o texto
permite, muitos editores optam por utilizá-lo em sua forma original.
Porém, na maioria das vezes, a linguagem tem de ser adaptada, o que faz
surgir uma nova obra. "Como são linguagens diferentes, com recursos
diferentes, há inevitáveis mudanças em relação ao texto original,
independentemente do nível de fidelidade que se tenha. É, portanto,
outra obra. Há uma tendência de se enxergar as duas produções (a
original e a adaptada) como uma mesma obra, o que é um equívoco", afirma
Paulo Ramos, professor do Departamento de Letras da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador de HQs. O mercado hoje
também enxerga dessa forma. Antigamente era o nome do escritor do texto
original que aparecia nas capas das publicações; agora, os direitos da
versão HQ ficam com o roteirista e o quadrinista.
Especialistas e roteiristas afirmam que é possível, sim, manter a
densidade da obra original. "Muitas vezes a densidade está na ideia ou
na atmosfera, não na sintaxe. É claro que a linguagem e o estilo do
autor não podem ser mantidos integralmente em um outro formato nem é
esse o objetivo da adaptação", diz Jaf, que faz roteiros para HQ desde
os anos 1980 e já adaptou Edgar Alan Poe e Júlio Verne, além de inúmeros
escritores brasileiros. "Com apenas um desenho se pode mostrar a
paisagem que José de Alencar leva cinco páginas para descrever com
palavras, mas isso não impede que o leitor a sinta densamente."
Apesar de ser cada vez mais aceita, a literatura em quadrinhos
enfrenta a resistência de quem acredita que os mais jovens podem se
contentar em ler essa versão, apontada por grande parte dos leitores
como mais divertida, e fugir de vez do texto original. Mas a tese é
questionada. "Não precisamos fazer nenhum esforço para afastar os
leitores dos textos clássicos: o sistema educacional já faz isso por si
mesmo", afirma Marcelo Quintanilha, responsável por todo o processo de
adaptação de O Ateneu, de Raul Pompeia, também da Editora Ática.
Quintanilha acredita que uma boa adaptação pode incentivar o leitor a
buscar o texto clássico. A escritora e roteirista Denise Ortega, autora
da versão HQ de Os Doze Trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato,
editado recentemente em uma caixa com outros cinco livros pela Editora
Globinho, compartilha a opinião. "Somos visuais. Os quadrinhos podem ser
o primeiro contato do leitor com a história, assim como o cinema.
Quando O Senhor dos Anéis virou filme, por exemplo, houve uma grande
procura pelos livros."
Para Jaf, cada meio fornece uma experiência única e é justamente essa
diferença que precisa ser valorizada em cada adaptação. "Essas novas
formas de leitura não afetam o original. Ele continuará sempre lá,
preservado em seu formato, sem correr nenhum perigo."
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