O paulistano Alexandre
Nobre mora em Ribeirão Preto onde abriu uma loja, a Calê Home. Ele já passou
pela música como compositor e guitarrista em bandas de blues e rock e agora
lança seu primeiro livro, “A mangueira da nossa infância”, com uma coletânea de
contos premiados em concursos.
Confira o bate-papo com o nosso “Autor do
Mês”:
Sociedade
do Livro: A publicação de “A mangueira da nossa infância”, seu
primeiro livro, aconteceu depois que você recebeu uma premiação da Secretaria
da Cultura de São Paulo. Como foi esse processo e antes você já tinha pensado
em publicar seus contos?
Alexandre
Nobre: O ProAC é um programa de ação
cultural que tem como objetivo apoiar e financiar a produção artística no
Estado de São Paulo. São várias modalidades contempladas, mas eu nunca havia
ouvido falar disso antes. Foi um grande amigo e escritor, o Whisner Fraga, quem
me mandou o edital e insistiu para que eu me inscrevesse. Foi muito simples,
lembro que enviei o projeto do livro e três contos para avaliação. Fui um dos escolhidos,
eles te dão o dinheiro e você tem que publicar o livro. Quis fazer a coisa
direito então procurei a editora de um cara com grande experiência na área, o
Alonso Alvarez, ganhador do Jabuti de melhor produção editorial, e o livro
saiu. É claro que já pensava em publicar os contos, mas nunca imaginei que
seria assim.
SL: Vários textos
seus já receberam os mais variados prêmios. São textos que você escreve com o
propósito de inscrevê-los em concursos ou são textos que você já tinha escrito
e que você inscreve?
AN: Quando eu comecei a conhecer esse universo de concursos
literários já tinha vários contos escritos. Descobri os concursos através das
redes sociais, na época era o Orkut. Para mim foi um achado, porque eu escrevia,
mas não mostrava para ninguém. Nem para minha mulher. Então era uma
oportunidade de ser lido por gente que vivia e entendia de literatura. Mas, desde
o começo, eu mesmo me impus uma regra: jamais escrever só para participar dos
concursos. Acredito que isso não pode resultar em trabalho de qualidade. Quer
dizer, escrever um conto só para caber num determinado edital, não dá. Tema
então eu abomino. Fica parecendo redação escolar. Hoje em dia ainda tem
concursos que impõe tema, número de páginas e etc. Então eu faço assim: se o
concurso é bom, renomado e se por acaso eu tenho uma história que caiba no
edital, eu envio. Se não, nada feito.
SL: Como e quando
você começou a escrever?
AN: Eu escrevo desde criança, é uma necessidade. Quem me
conhece sabe que eu não consigo conversar sem rabiscar alguma coisa. Fico sem
saber onde colocar as mãos. Começou por causa de um morcego numa bolsa. Foi
assim: eu era pequeno, tinha uns seis anos de idade, estava no pré-primário
(hoje não sei como é que chama) e um dia uns meninos mais velhos colocaram um
morcego morto na minha mochila. Só vi quando eles saíram correndo e dando
risadas. Aí fui lá olhar minha mochila e
tinha o bicho morto. Precisei jogar um monte de coisa fora porque fiquei com
nojo. Isso me marcou muito na época e então, um tempo depois, quando eu já
tinha doze anos, precisei fazer uma redação na escola contando algum fato
marcante da minha vida. Pensei assim: vou escrever a história do morcego.
Escrevi e a professora de português na época ficou muito impressionada, me
chamou na frente da classe pra elogiar, colocou minha redação no jornal da
escola e tudo. Lembro que ela escreveu que era pra eu continuar, que eu tinha
estilo, um jeito bonito de escrever e me incentivou bastante. Desde então eu
tenho tentado.
SL: Além desse
primeiro livro, onde as pessoas podem encontrar seus textos?
AN: Tenho contos em antologias, em alguns sites de
literatura, jornais, mas tudo espalhado. Agora, com o livro, estou começando a pensar
um blog, ou uma página para fazer isso de uma forma mais organizada.
SL: Já tem alguma
nova obra planejada para publicar?
AN: Tem uma história que foi a primeira que escrevi e que
estou trabalhando para lançar na forma de romance. Não sei se tenho fôlego para
tanto, mas estou colhendo material, fazendo anotações, e tal. Também tem um
novo livro de contos, onde todas as histórias se passam numa mesma cidade. Mais
ou menos como no “Dublinenses” do James Joyce. Sou apaixonado pela diversidade
que pulsa dentro de uma mesma cidade, mas que, ao mesmo tempo, dá uma
característica única àquele lugar.
SL:
Além de contos, você trabalha com algum outro estilo literário?
AN: Estou, como disse, tentando o Romance. Poesia eu escrevo,
mas só para mim mesmo. Ainda não tive coragem de publicar nada neste campo,
preciso amadurecer um pouco mais o estilo.
Leio bastante poesia, é indispensável para um autor de prosa. Acho que é
indispensável para qualquer um.
SL: Nessa primeira
coletânea, podemos observar temas diversos e enquanto lia o livro ficava
pensando de onde havia surgido aquela história. Com uma curiosidade para saber
se aqueles personagens eram reais. De onde vem a inspiração?
AN: Esta é uma questão que sempre me intriga. Acredito que,
por mais que as histórias sejam inteiramente inventadas, a raiz está nas
experiências pessoais do autor. É claro que não vivi aquelas histórias, daquela
forma como foram escritas. Se não, seria pura biografia e eu seria um louco,
assassino, ou uma menininha de sete anos. Mas, de algum modo, partiram de algum
fato, algum sentimento ou alguma experiência que tive contato, me marcou, e que
colocou em marcha a minha fantasia criadora. Não acredito apenas em inspiração,
mas o Mario Vargas Llosa diz, e eu concordo com ele, que todo autor é um
revoltado. Alguém que não aceita a realidade, a vida simplesmente como ela é, e
então se dedica a criar realidades fictícias, fabricadas pelos seus desejos e pela
sua imaginação. Na maioria das vezes não sei de onde vem a história, mas se vem
de algo meu, legítimo, sei que vai ter força.
SL: Muitos autores têm
uma grande afinidade com a música. E com você não é diferente. Além de ter sido
compositor e tocar guitarra, qual a relação entre escrita e música na sua vida?
AN: Durante muitos anos eu abandonei a literatura para tentar
a música. Sou apaixonado por blues e rock, e toquei nos anos 1990 aqui em
Ribeirão. Tocar guitarra para mim é algo muito próximo à poesia, tem o poder de
me tirar do mundo, me acalma e me deixa pronto para ler e escrever. Eu escrevo
a noite, então sempre pego a guitarra para ficar mais relaxado. Não são raras
as vezes que, quando eu percebo, já são 02:00, 03:00 da manhã e eu não li nem
escrevi nada, só fiquei tocando guitarra. A relação é mais sensorial do que
intelectual.
SL: Em junho, você vai
estar na Feira do Livro de Ribeirão para um Salão de Ideias. Como vai ser sua
participação no evento e quais as expectativas?
AN: Fui convidado para um salão de ideias no dia 13/06, em
que vou estar sozinho. Dá medo, por ser pouco conhecido, com um livro de
estreia. Vou torcer para ir gente. Pretendo falar do livro, do processo de
criação, das obras e autores que gosto. Tem mais alguma coisa que estou
preparando, talvez a apresentação dramática de um conto. Aproveito para
convidar a todos, tenham certeza que vou avisar e gostaria muito da presença de
vocês.
SL: Como você diria
que a literatura afeta a sua vida e a vida das pessoas que leem sua obra?
AN: O poeta Ferreira Gullar costuma dizer que “A arte existe
porque a vida não basta”. Faço minhas as palavras dele. Eu não saberia viver
sem literatura. Os livros que li sempre foram meus guias, minha régua para
entender a vida. Mas também serviram para me afastar um pouco dela, para
ultrapassa-la. É essencial transcender a vida. O ser humano precisa de
fantasia. Muitos dos meus contos são tristes, mas eu os escrevi numa alegria imensa.
A arte transfigura as coisas. Não sei se meu livro vai afetar a vida de alguém.
Fico feliz em imaginar que sim.
Rapidinhas:
Livro favorito: É impossível um só, mas, por
hoje: “Luz em Agosto” do Willian Faulkner.
Autor favorito: continua impossível, mas talvez o
Albert Camus.
Um livro que leu e que
gostaria de ter escrito: Um ensaio “O mito de Sísifo”, do Camus.
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