“A vida é imprevisível. O controle é só uma
ilusão.”
Até que ponto
conhecemos alguém? Vivemos diariamente com família, amigos, colegas, conhecidos
e nunca vamos realmente conhecer essa pessoa de verdade?
Não pretendia escrever
sobre essa série baseada no livro de Jay Asher que assisti em quatro dias – “Os
13 porquês”. Ganhei o livro quando lançou, mas li apenas os primeiros capítulos
e fiz o que muita gente fez com a personagem Hannah– desisti.
Retomei agora após
assistir a série e achei que ambos foram muito bons passando muitas mensagens
não só para jovens, mas para adultos. Tanto o livro quanto a série abordam
muita coisa – Bullying, depressão, falta de atenção, falta de amor, assédio
sexual, suicídio. Como a vida tem seus altos e baixos e como as pessoas ao
nosso redor podem melhorar ou piorar isso.
“Você
não sabe o impacto que tem na vida dos outros. Tudo afeta tudo.”
Eu não queria falar
sobre essa série/livro pois existem coisas que simplesmente não tem como serem
descritas, mas ter assistido essa história e depois ter lido remexeu muito
intensos sentimentos guardados e otras
cositas más. Tocaram em feridas antigas (e novas), situações espelhadas e
segredos. Não queria falar, mas eu devo falar para as pessoas lerem e
assistirem a essa série e refletirem sobre as situações que são reais e pesadas
que envolvem todas as situações.
“Há
muita coisa errada no mundo. Há muita dor. Não suportava saber que não ia
melhorar...”
A
história é a seguinte: Ao voltar para casa após mais um dia de escola o jovem
Clay Jensen encontra um misterioso pacote com seu nome na porta de sua varanda.
Dentro ele descobre sete fitas cassete gravadas por Hannah Baker, sua colega de
classe que cometeu suicídio algumas semanas antes. A princípio Clay relutou, mas apertou o
play... A voz de Hannah lhe explica que há treze razões pelas quais decidiu
acabar com sua vida. Clay é um deles. Se ele ouvir, descobrirá 13 porquês.
"Engulo com força. Lágrimas pinicam o canto dos meus
olhos. Porque é a voz de Hannah. Uma voz que pensei que jamais ouviria
novamente. Não posso jogá-la fora."
Eu, Tu, Ele, Nós, Eles ouvimos nos tornamos testemunhas
direta da dor de Hannah. A cada lado da fita lido/ouvido somos destruídos por
dentro pouco a pouco. Por isso assistam com moderação, absorvam, respirem,
reflitam...
Fita 1: Lado A
"Olá, meninos e meninas. Quem fala aqui é Hannah Baker. Ao vivo e em
estéreo.
Sem promessa de retorno. Sem bis. E, desta vez, sem atender aos pedidos
da plateia.
Espero que vocês estejam prontos, por que vou contar aqui a história da
minha vida. Mais especificamente, por que ela chegou ao fim. E, se estiver
escutando estas fitas, você é um dos motivos.
Não vou dizer qual fita tem a ver com sua participação na história. Mas,
não precisa ter medo. Se você recebeu essa caixinha bonitinha, seu nome vai
aparecer...
Eu prometo.
Afinal, uma garota morta não mentiria....”.
A
série segue muito bem, até mesmo melhor, o que é exposto no livro. Jay Asher
nos coloca dentro do livro hora como se fossemos Hannah, hora Clay, hora pais,
hora adolescentes....nos conectamos profundamente aos desesperos, dor, vazio,
solidão. O produtor Brian Yorkey conseguiu atrair a atenção
para todos os temas propostos e passar todas as aflições e pontos de vista de
todas as personagens e com a diferenciação sutil de cores mais vivas quando
Hannah ainda não se matou e cores mais azuladas após o suicídio de Hannah. Uma
coisa que achei muito legal foi como usaram um simples band-aid para
diferenciar presente e passado, muito criativo.
Ouvi muita gente
criticar Hannah e dizer “Nossa quanto drama! – Que menina porre! (Confesso que
no livro senti Hannah um pouco mimada, mas é que são sensações passadas
diferentes de uma mesma personagem no livro X série) - Se matar por isso, pff!”,
mas consegui entender toda a carga que a jovem passou. E também ninguém sabe o
que realmente acontece na vida de outra pessoa, o que elas passam e aguentam
todos os dias, como elas lidam com todos seus sentimentos.
Penso que Hannah pode
ter errado em colocar algumas pessoas na sua lista pois essas pessoas tinham
seus problemas e suas dificuldades, mas vivemos fazendo isso – nossa dor sempre
é maior que a do outro, nossa capacidade de julgar rapidamente uma situação ou
vida dos outros é impressionante. Ainda assim, a meu ver, a garota tinha seus
porquês.
Pois na vida é assim –
Você desabafa e te dizem “nossa, que difícil” e já emendam e te cortam “ah,
comigo também blábláblá...”. Você faz uma piada e passa em branco. Os que se
dizem mais próximos vão aos poucos se afastando. Às vezes cansam de você, às
vezes cansam de si e acabam descontando em você, cansam da rotina, às vezes sei
lá o que e quando você vê, aquele que chamou de amigo, babau. A própria família
te esconde coisas, age de uma forma pra te proteger e só está te fazendo é
sofrer. Você faz, faz, faz, ajuda, ajuda, ajuda e nada está bom. É pedrada de todo lado, ingratidão de cima e
de baixo, crítica mascarada a cada seis horas...
As pessoas andam muito
egoístas. Elas podem até te querer bem, mas jamais melhor que elas. Olham só
pra si, pra seus sentimentos, seus atos, suas opiniões. O humano está
esquecendo como é viver em sociedade e viver com o outro e para o outro. É
disso que falam os livros e a série.
Muitos psicólogos e psiquiatras dizem que a Netflix “romantizou o
suicídio” e estão apavorados com a cena final onde Hannah se mata (que há na
série e no livro não) achando que vai desencadear um efeito de Werther nas
pessoas. Esse efeito “inspiraria” os
que sofrem de algum nível de fragilidade psíquica ou emocional e é baseado no suposto
impacto de “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, livro do escritor Goethe à fama,
mas ainda assim penso que seja uma série que deve ser vista, refletida e
discutida entre todos pelos vários temas nela propostos.
“Ah mas não dá pra
ajudar alguém que já desistiu de si mesmo...”.
- Sério? E por que essa pessoa desistiu de si mesmo? Bullying? Vazio,
depressão, dor, cansaço, incompreensões, propósito de vida,
desentendimentos...? Ninguém quer mais ouvir! Ouvir o que outro tem a dizer.
Outros até ouvem, mas não fazem nada. Ninguém quis ouvir Hannah Baker. Ninguém
percebeu seus sinais.
“Você
abre seu coração para uma pessoa e todos acabam rindo...”
Claro, nós somos donos
do que sentimos, mas pessoas, atos, palavras afetam tudo o que somos. Sim,
somos nós também que decidimos se vamos ou não deixar alguém estragar nosso dia
ou nossa vida, mas não é tão simples assim.
“Eu
queria um propósito, uma razão pra eu estar nessa Terra...”
Todos estão vivendo
suas próprias batalhas e seria mais fácil se cada um se juntasse e lutasse
junto, mas não...a preguiça, o egoísmo, a falta de caráter, a inveja, o mal, a
falta de amor, falta de compreensão – tudo isso faz com que as pessoas falem o
que pensam, façam sem medir consequências e quem paga são as Hannah Bakers da
vida.
“Parece
que não importava o que fizesse, eu sempre decepcionava as pessoas. Comecei a
pensar como a vida de todos estaria melhor sem mim. E como é se sentir assim? É
como sentir nada. Como um vazio, sem fim, um grande nada.” – Hannah Baker
Em algum momento alguma
coisa vai tocar em alguma parte de você enquanto ler/assistir “Os treze
porquês”. Alguma coisa vai impactar você de alguma forma. Não tem jeito. Todos
somos Hannah Baker. Todos sofremos ou fazemos sofrer, todos nós já ouvimos
alguém e deixamos por isso mesmo. Já nos ouviram e deram de ombros. Já
percebemos algo e deixamos pra lá pois é mais fácil, já nos julgaram e nos
tacharam chatos e depressivos e desistiram de nós...mas cabe a nós olharmos
mais pro outro e tentar ajuda-lo, ou apenas ignorá-lo e aí, o final, pode até
não ser trágico, mas também pode ser tarde demais de diversas maneiras.
“Precisa
melhorar o jeito que olhamos pro outro e cuidamos do outro. Precisa melhorar.”-
Clay Jensen





