Por Maju Raz
Um dia uma amiga enviou-me um texto por e-mail.O
nome do escrito era "Acorrentados". Aí vi que quem escreveu esse
texto era Paulo Mendes Campos, e que "Acorrentados" se encontrava no
livro "O anjo bêbado". Aí eu quis muito esse e rodei
sebos e sebos até acabar o encontrando.
É um livro muito gostoso cheio de opinião,
contos, crônicas e belos poemas.
Sempre amei literatura brasileira, mas confesso
que preciso me dedicar mais a ela.
Fica aqui o texto que acho o mais lindo do livro "O Anjo
Bêbado" da Editora Sabiá - Rio de
Janeiro, 1969, pág. 105.
Acorrentados
Paulo
Mendes Campos
Quem
coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no
desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem
chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma
lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver
melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se
ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura
na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da
porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas
dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta
cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de
cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio;
quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os
dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda,
se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o
hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de
conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos
ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças;
quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa
fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e
dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da
existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se
desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos
que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem
de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não
sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles
são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos
pequenos amores da armadilha terrestre.
Biografia de Paulo Mendes Campos
Paulo
Mendes Campos nasceu a 28 de fevereiro de 1922, em Belo Horizonte -
MG, filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de
Lima Campos. Começou seus estudos na capital mineira, prosseguiu em
Cachoeira do Campo (onde o padre professor de Português lhe vaticinou:
"Você ainda será escritor") e terminou em São João del Rei.
Começou
os estudos de Odontologia, Veterinária e Direito, não chegando a
completá-los. Seu sonho de ser aviador também não se
concretizou.
Veio
ao Rio de Janeiro, em 1945, para conhecer o poeta Pablo Neruda, e por aqui ficou.
No Rio já se encontravam seus melhores amigos de Minas — Sabino, Otto, e Hélio
Pellegrino. Passou a colaborar em O Jornal, Correio da Manhã e Diário Carioca. Neste
último, assinava a "Semana Literária" e, depois, a crônica diária
"Primeiro Plano". Foi, durante muitos anos, um dos três
cronistas efetivos da revista Manchete.
Admitido
no IPASE, em 1947, como fiscal de obras, passou a redator daquele órgão e
chegou a ser diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, no Rio
de Janeiro.
Em
1951 lança seu primeiro livro, "A palavra escrita" (poemas).
Casou-se,
nesse mesmo ano, com Joan, de descendência inglesa, tendo tido dois filhos:
Gabriela e Daniel.
Buscando
meios de sustentar a família, Paulo Mendes Campos
foi repórter e, algumas vezes, redator de publicidade
Foi,
também, hábil tradutor de poesia e prosa inglesa e francesa — entre outros
Júlio Verne, Oscar Wilde, John Ruskin, Shakespeare, além de Neruda, tendo
enriquecido sua experiência humana em viagens à Europa e à Ásia.
Em
1962, experimentou ácido lisérgico, acompanhado por um médico. Relatou
sua experiência em artigos publicados na revista "Manchete", depois
reproduzidas em "O colunista do morro" e em "Trinca de
copas", seu último livro. Disse que a droga abriu
"comportas" e ele se deixou invadir pelo "jorro caótico"do
inconsciente até sentir o peso e a nitidez das palavras que produziam um
"milagre da voz". E completava: "A comparação não presta,
mas por um momento eu era uma espécie de São Francisco de Assis falando com o
lobo. O lobo também sabe que amor com amor se paga".