Por Francine Estevão
A 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo ainda não acabou, mas já
é lembrada como a edição mais desorganizada dos últimos anos.

O tumulto, as filas, o excesso de pessoas, os altos preços dos livros (e das comidas e bebidas) estão sendo mais comentados do que os bons momentos vividos no evento. Principalmente
por aqueles que visitaram a Bienal no primeiro final de semana, dias 23 e 24,
quando as editoras levaram ao Pavilhão de Exposições do Anhembi nomes internacionais
como Cassandra Clare, Kiera Cass e Harlan Coben, fora os muitos autores
nacionais de sucesso e queridinhos, principalmente, do público infanto-juvenil,
como Paula Pimenta, Thalita Rebouças, Bruna Vieira, Ziraldo, entre outros, que
tumultuaram os estandes e os corredores locais. (Sem contar em nomes como
Naldo, Cumpadi Washington e alguns outros que sinceramente eu não sei o que
faziam ali lançando seus livros, músicas, etc. Tinha até político percorrendo
os corredores gravando vídeos de campanha. Me poupe, por favor!)
A falta de organização começou pela entrada do evento, em
que foi impossível para qualquer ser humano educado respeitar a fila que
tentaram fazer para ordenar o acesso das pessoas ao evento. Apesar disso, a
entrada fluiu bem a partir do momento em que abriram as portas para o público.
Já lá dentro, a confusão ficou por conta da divergência de
informações sobre a retirada de senhas para sessões de autógrafos e bate-papos
com autores. Eu fiquei na tentativa de conseguir Harlan Coben e minha amiga
tentanto Kiera Cass. As senhas para o Harlan acabaram exatamente na pessoa da
minha frente. Se tivesse só mais uma senha eu conseguia garantir meu autógrafo,
mas não tive tanta sorte. Minha amiga também precisou abandonar a fila na
metade porque as senhas esgotaram muito antes de mais da metade da fila se
aproximar do ponto onde elas eram distribuídas.
No caso do Harlan Coben, a informação que passaram no
estande da Arqueiro foi a de que o próprio autor havia dito que autografaria
quantos livros fossem necessários, independente de quem tinha senha ou não, mas
que devíamos seguir para a Arena Cultural. Lá consegui – pelo menos isso –
acompanhar de perto o bate-papo com o autor (que vou falar mais sobre no
próximo post). No entanto, a informação sobre os autógrafos estava “errada” e,
para quem não tinha senha, o autógrafo seria no estande da editora, que já
tinha fila desde as 11 e pouco, para que as pessoas fossem atendidas depois das
14h. Sem disposição para perder meu dia em uma fila, desisti da ideia e me
contentei com o bate-papo do qual participei.
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| Harlan Coben |
A “zona” para ver Cassandra Clare foi ainda maior e por onde
você olhava você via adolescentes desesperados para tentar encontrar uma
possibilidade de chegar ao menos perto da autora. Ainda bem que nem eu nem
minha amiga fizemos parte desse grupo e não tínhamos nenhum interesse nos
eventos com a autora. Só a título de registro, a cada suspiro dessa mulher, milhares de garotas e (alguns) garotos desesperados gritavam loucamente rendendo, até mesmo, uma piada por parte de Raphael Montes durante seu bate-papo com leitores: "A mesa de literatura policial é aqui dentro, mas lá fora estão matando menininhas. Meninas, não saiam daqui!"
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| Raphael Montes e Pablo de Santis |
Visitar os estandes das principais editoras também foi uma
batalha para todos aqueles que tentaram. Passei dois dias no evento e em nenhum
momento consegui entrar, por exemplo, no estande da editora Novo Conceito. A fila simplesmente para entrar no estande – sim, nas grandes editoras, nas mais famosas, você
enfrentava fila apenas para conseguir ver os livros, fora a fila que você teria
que enfrentar caso decidisse comprar alguma coisa – dava voltas e mais voltas e
nunca chegava ao fim.
Outro aspecto que considerei falta de organização foi o fato
de estas grandes editoras estarem aglomeradas num mesmo ponto. Novo Conceito,
Record, Companhia das Letras, Intrínseca, Sextante, Arqueiro e Novo Século estavam
extremamente próximas, dividindo corredores e fazendo daquele ponto uma verdadeira zona de guerra para quem desejava
passar por ali. Enquanto em outros corredores sobrava espaço e em alguns
estandes faltavam visitantes. Sem falar das editoras grandes que concentraram sessões
de autógrafos nos próprios estandes. Não façam isso nunca mais! Acho que a
Bienal deveria disponibilizar mais espaços como a Arena Cultural para que as
editoras colocassem essas sessões, liberando os estandes para quem queria
simplesmente visitá-los, ver os livros e talvez comprar algum título. Mas, por
falar em comprar...
Em contraposição às milhares de pessoas que saiam carregadas
de livros, com mochilas e malas lotadas das compras feitas nos estandes, deixei
a Bienal com apenas dois títulos na bolsa. Ainda assim, livros comprados em um
dos estandes promocionais que havia por lá, destes onde há livros de todas
editoras, de diferentes gêneros, e tudo a partir de 10 reais. Com muita paciência,
minha amiga e eu garimpamos algumas coisinhas e conseguimos sair com
três livros as duas – dois meu, um dela. Por quê tão pouco? Simplesmente porque
os preços dos livros nos estandes das editoras eram absurdamente altos. Roubando
a fala da minha amiga, as pessoas que estavam comprando livros no evento com
certeza são pessoas que NÃO têm o hábito de comprar livros porque elas não
fazem ideia do valor de um livro. Alguns títulos estavam mais caros do que em
livrarias comuns e muito mais caros do que na internet. Ou seja, não valia a
pena comprar nada lá.
Se alimentar e ir ao banheiro era outra guerra. As filas
para os banheiros eram infinitas. Juro. Não terminavam nunca. Passei dois dias
inteiros sem ir ao banheiro durante todo o tempo que permaneci no Anhembi porque, se não me dispus a perder tempo em filas
para entrar em estandes, porque eu perderia meu tempo em filas de banheiro? Já
para comer, não havia alternativa. Era pegar fila ou pegar fila já que a
bolacha que levei não iria me sustentar o dia todo. Por sorte, minha amiga e eu
decidimos comer em uma das lanchonetes que tinha ao longo dos corredores em
vez de ir direto para a praça de alimentação, e por ali as filas eram bem
menores.
Resumindo, meus dois dias de Bienal se resumiram a filas, algumas fotos de alguns autores, a dois livros comprados, a
dois bate-papos sobre literatura policial, um com Harlan Coben e outro com
Raphael Montes e Pablo de Santis, a muita “andança” e muito cansaço. Apesar disso, deu para curtir e ter uma noção mais "real" do que é uma Bienal Internacional do Livro. Para quem ama literatura, vale a pena a visita, nem que seja apenas para conhecer, mas meu conselho é para que você vá sem a necessidade absoluta de conhecer algum grande nome da literatura que estará por lá em algum evento, bate-papo, sessão de autógrafos, etc. Mas se essa for sua intenção, chegue extremamente cedo e vá apenas para isso.
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| Maurício de Sousa |
Por fim, pra não dizer que não falei quase nada de bom da Bienal, o meu parabéns vai para a parte do
transporte gratuito oferecido pela organização do evento. Apesar de a fila para
pegar o ônibus estar, quase sempre, enoooorme (dando a volta no terminal
rodoviário), essa fila andava extremamente rápido, tanto na ida quanto na
volta, e você ainda ia e voltava do evento confortavelmente. Ponto positivo
para pelo menos um serviço que funcionou sem tumulto e com bastante agilidade.