segunda-feira, 28 de novembro de 2011

RESENHA: "Jogos Vorazes" de Suzanne Collins

  Por Roh Dover         
                  
Título Original: Hunger Games
Título Nacional: Jogos Vorazes
Tradução: Alexandre D'Elia
Ano de Lançamento: 2010
Número de Páginas: 398
Categoria:
Ficcção/Fantasia
Editora: Rocco
Classificação: Excelente (5/5)

Sinopse: Constituída por uma suntuosa Capital cercada de 12 distritos periféricos, a nação de Panem se ergueu após a destruição dos Estados Unidos. Como represália por um levante contra a capital, a cada ano os distritos são forçados a enviar um menino e uma menina entre 12 e 18 anos para participar dos Jogos Vorazes. As regras são simples - os 24 tributos, como são chamados os jovens, são levados a uma gigantesca arena e devem lutar entre si até só restar um sobrevivente. O vitorioso, além da glória, leva grandes vantagens para o seu distrito. Quando Katniss Everdeen, de 16 anos, decide participar dos Jogos Vorazes para poupar a irmã mais nova, causando grande comoção no país, ela sabe que essa pode ser a sua sentença de morte. Mas a jovem usa toda a sua habilidade de caça e sobrevivência ao ar livre para se manter viva.


"Jogos Vorazes" é o primeiro livro da trilogia escrita por Suzanne Collins. A sinopse dentro do livro pode não chamar atenção para determinados tipos de leitores, por se mostrar um tanto científico e desinteressante, porém a verdadeira propaganda, segundo dizem, é o "boca a boca". Com isso, "Jogos Vorazes" virou um sucesso de uns tempos para cá, e o que a sinopse não deu conta de realizar, a curiosidade conseguiu e muitos leitores começaram a ler e apreciar a obra de Collins. Entretanto, para o leitor entender a obra, além dos olhares fantásticos sobre a trama, precisa conhecer um pouco sobre semiótica. 


A semiótica pode ser descrita como o estudo dos signos, dado como qualquer evento cultural no qual possuem, todos eles, fenômenos cognitivos. Ou seja, algo que sob a superfície do pensamento humano, não podemos captar, mas entre as linhas, há um sentido muito maior do que expressado pelas palavras do surrealismo.


Para entendermos, basta comentarmos sobre "Jogos Vorazes". A história é narrada sob a percepção da adolescente Katniss, que vive no último Distrito de seu país, o Distrito 12. Lá os trabalhadores necessitam produzir carvão, assim como outros Distritos precisam realizar as tarefas de agricultura, pesca, tecnologia entre outros, para a cidade que governa tudo, chamada Capital. Os Distritos e a Capital se localizam num país chamado Panem, antiga América do Norte, e é nesse mundo futurístico que Katniss é envolvida nos Jogos Vorazes. 


O que dá nome ao livro são os jogos feitos anualmente pelos comandantes do país, que sorteiam, ano após ano, tributos dos 12 Distritos, que são um menino e uma menina, para participarem dos Jogos. Ao todo, entram na arena 24 tributos de 12 a 18 anos, e apenas um sai com vida. Os comandantes de Panem realizam os Jogos Vorazes como um lembrete para a população relembrar a ultima rebelião feita contra a Capital. 


Katniss se voluntaria para ser um tributo em lugar da irmã que tanto ama, e o tributo escolhido do seu distrito é o filho do padeiro, Peeta. Juntos, eles são treinados e recebem avisos de seu orientador, ex-vencedor dos Jogos, para sobreviverem a carnificina, mas Katniss nunca esquece que, apesar de estar junto ao seu companheiro de Distrito, apenas um sairá com vida da arena. 


Olhando então, além da fantástica aventura científica que Suzanne nos faz conhecer, também há uma crítica efusiva à sociedade em que vivemos. Uma rebeldia tanto ao poder que a mídia ostenta nos dias de hoje, como também ao sistema que nos orienta desde muitos anos atrás. Por trás da visão de Katniss, de suas lembranças e de sua coragem para se manter viva dentro da arena dos Jogos Vorazes, imposto pela Capital, está a semiótica que pode-se analisar dentro de cada capítulo que a autora escreve. 


Através da sua escrita fantástica e da sua história ficcional, podemos enxergar, mesmo que inconscientemente, códigos que provêm dos frutos realísticos da nossa própria sociedade. O código mais fácil de se enxergar é o próprio mundo em que Katniss vive, Panem, que pode facilmente ser aquele que nós estaremos vivendo daqui a alguns anos. 


Para exemplificar a escrita de Suzanne, que podemos chamar de irônica, citarei dois filmes muito conhecidos. O primeiro, “O Show de Truman” protagonizado por Jim Carrey, onde o enredo principal do filme estava na semiótica do próprio diretor que o produziu, mostrando para a sociedade o poder que as mídias exercem sobre toda população, a ditadura do status e o poder que eles têm em ditar o que é noticiável e o que não o é, alienando qualquer indivíduo que vive no sistema. 


O segundo é “V de Vingança” que por detrás da história do anarquista revoltado contra as regras do sistema em que vive, existe uma revolta verdadeira com nosso próprio sistema, o capitalismo, que de acordo com as teorias do socialismo, tendo por base Marx e Engel: “Os pensamentos da classe dominante também são, em todas as épocas, pensamentos dominantes. Ou seja, a classe quem tem o poder material dominante numa dada sociedade também tem potência dominante espiritual”. O que se diz é que a classe dominante leva consigo a ideologia dominante, muitas vezes freando rebeliões por infiltrar medo e diversão nas classes dos trabalhadores, pois, para que o sistema reinado pelos dominantes chegue ao fim, é apenas com a rebelião da classe dos trabalhores, chegando-se assim ao caos, e apenas o caos mata a ideologia vigente.


A junção desses dois filmes citados demonstra com clareza a rebeldia camuflada da escrita fantástica de Suzanne, que por um lado critica o poder que a mídia ostenta perante a população, ditando quaisquer regras que tragam benefício para as classes dominantes. E por outro, uma crítica ao sistema, muito parecido com o capitalismo em que vivemos. E ainda tem-se um terceiro motivo, aquele que se faz da alienação da própria população, que apesar da ideologia imposta pelo sistema e das ditaduras das mídias, se conforma sendo passiva, uma alienação provida do fruto de compra e venda de trabalho escravo. Embora Katniss, seja a anarquista do “V de Vingança” e o próprio Truman em seu show, aquela que escapa do passivo, que se rebela, que entende que por trás da ideologia de um sistema, há os beneficiários privados e que nem a mídia, nem o sistema podem impor algo a ela quando não o quer, conseguindo ditar as suas próprias regras e levando dentro de si uma rebelião que pode acabar com o país.


Suzanne Collins consegue reviver a escrita de muitos autores há séculos atrás, que contavam suas fantasias como forma de escape para suas próprias críticas internas, sem que o sistema pudesse culpá-los de tal fato. Os trabalhores dos Distritos, as pessoas da Capital, o presidente e os Jogos Vorazes, enfim, o mundo de Katniss tem muito o que nos ensinar sobre nossa própria alienação diante do nosso sistema.


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